Suspensão de processos sobre pejotização por Gilmar Mendes traz grave ameaça aos trabalhadores

CSP Conlutas
Suspensão de processos sobre pejotização por Gilmar Mendes traz grave ameaça aos trabalhadores
Suspensão de processos sobre pejotização por Gilmar Mendes traz grave ameaça aos trabalhadores

Nesta segunda-feira (14), o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes determinou a suspensão de todos os processos no país que tratam da legalidade do modelo de contratação de trabalhador autônomo ou pessoa jurídica para prestação de serviços, conhecida como “pejotização”. A paralisação das ações permanecerá válida até que o mérito do caso (Tema 1389) seja julgado pelo Plenário.

O julgamento terá repercussão geral, conforme decidiu o STF em votação terminada no último dia 12. Assim, seu resultado servirá de parâmetro para todos os casos semelhantes, em todas as instâncias da Justiça brasileira.

Com o Tema 1389, o STF pretende debater três pontos centrais: a competência da Justiça do Trabalho para julgar fraudes em contratos civis, a licitude dessas formas de contratação e o ônus da prova sobre a fraude.

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Precarização absoluta

Segundo Gilmar Mendes, a suspensão dos processos visa “evitar a multiplicação de decisões divergentes” e garantir a “segurança jurídica”. A questão é segurança para quem.

Na prática, a suspensão dos processos favorece empresas que vêm recorrendo cada vez mais à contratação de trabalhadores, como pessoas jurídicas ou autônomos, para burlar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e negar direitos trabalhistas básicos.

A pejotização tornou-se uma das principais formas de precarização do trabalho, impulsionada pela reforma trabalhista de 2017, que permitiu a terceirização irrestrita, inclusive da atividade-fim, decisão que foi validada pelo STF em 2018.

Mendes usou como pretexto para a suspensão o número crescente de recursos sobre o tema que estaria “sobrecarregando” o STF. No entanto, esse argumento esconde uma situação alarmante.

Como informou o site Estadão: só em 2024, já foram registrados 285.055 processos na Justiça do Trabalho que pedem o reconhecimento de vínculo empregatício, um aumento de 57% em relação ao ano anterior. Em 2025, apenas até fevereiro, já são 53.783 novas ações. É hoje uma das principais reclamações trabalhistas no país.

A institucionalização da fraude trabalhista

Para o professor da USP e jurista Jorge Souto Maior, a decisão de Gilmar Mendes representa um duro golpe contra os trabalhadores e reforça o papel do Judiciário como fiador das reformas neoliberais que desmontam os direitos trabalhistas.

Em artigo, o jurista afirmou que a suspensão dos processos ameaça a própria função da Justiça do Trabalho, que é a de garantir proteção aos trabalhadores em face do poder econômico das empresas. Para ele, o que está em curso é a tentativa de aniquilação completa do Direito do Trabalho.

O fato incontestável é que, diante do teor das decisões que antecedem a fixação do Tema 1389 e da abrangência que lhe fora dada, há a possibilidade real e concreta de, na prática, o Direito do Trabalho ser completamente aniquilado”, alerta.

Souto Maior afirma que esse julgamento pode representar a institucionalização da fraude trabalhista que representa a pejotização e que a luta em defesa dos direitos trabalhistas e contra a pejotização segue mais urgente do que nunca.

Tem muita gente assustada e indignada com as posições do STF e, sobretudo, com a proposição contida no Tema 1389. É preciso, no entanto, reagir! (...) independentemente do que for decidido no caso em questão, até por conta do conjunto da obra, que reflete um processo longínquo e reiterado de agressões aos direitos constitucionais dos trabalhadores e trabalhadoras, que, além disso, desnuda seu alinhamento com o ideário neoliberal e sua posição de classe, não deixa de ser uma janela histórica que se abre para reacender a luta de classes!”, afirma Souto Maior.

O pior que se pode fazer neste momento, portanto, é fingir que nada está acontecendo, ou, considerar que está tudo acabado e que não há nada que se possa fazer”, conclui.

A CSP-Conlutas segue exigindo que o governo Lula revogue a reforma Trabalhista e a lei da terceirização irrestrita, que embasam os ataques no âmbito do STF e demais instâncias do judiciário, bem como que as demais centrais sindicais cessem o atrelamento ao governo e também fortaleçam a luta em defesa dos direitos dos trabalhadores.