Wilson Honório da Silva era mais que um camarada, mais que um militante aguerrido, mais que um revolucionário, mais que um exemplo de luta.
Wilson era a potência viva, a explosão vital de força e sentimentos, de caráter e emoção, de sonhos por um mundo onde sejamos inteiramente e verdadeiramente livres.
Wilson era em sua essência um homem gay, negro, que insurgente como todas as bichas e pretos rebeldes de sua época, soube desde muito cedo as dores que carregava em um mundo que o escolheu como um dos alvos número 1. Sabia da origem da guerra escandalosa da sociedade contra a vida de quem ousa ser quem é.
Wilson soube também que o único caminho para resolver essa situação era através da rebeldia, da revolta organizada dos de baixo contra os de cima. Em meio à ditadura militar, foi quando começou sua jornada na militância dentro das fileiras do PSTU.
Nos anos de chumbo em que ser comunista e gay era uma dupla ameaça à nossas vidas, Wilson foi um dos pioneiros na batalha contra a LGBTIfobia, dentro e fora do partido, por entender que a LGBTIfobia, assim como o racismo, o machismo e outras opressões, é o que divide nossa classe e promove nossa super exploração, destrói nossas vidas.
Wilson era a personificação de nossa canção “eu não saí, eu explodi o armário, sou LGBTI e sou revolucionário”. Ele demonstra que quando derrubamos as portas da prisão da alienação, da humilhação e da violência, destinamos nosso ódio aos bilionários e donos do poder, e lutamos incansavelmente por nada menos que tudo, se tivermos a perspectiva revolucionária como saída.
Nosso querido Wilson era também aquele que cantava “por menos que conte a história, não te esqueço meu povo, se Palmares não vive mais, faremos Palmares de novo”. Wilson foi um expoente dentro do movimento negro brasileiro, nas lutas contra o racismo, contra o mito da democracia racial, mas também contra a própria sociedade racista que gera os banhos de sangue nas periferias e guerra profunda contra os negros e negras no Brasil e no mundo.
Impossível não mencionar também que Wilson era um internacionalista por excelência, destacado militante da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), e que carregou por toda a sua vida as bandeiras internacionais de solidariedade com os povos de África, com o povo palestino e com a classe trabalhadora em toda e qualquer parte do mundo. Era um agitador e propagandista que travava batalhas duríssimas onde estivesse, mas também um tradutor e intérprete que fazia o máximo esforço para conectar as lutas em todo o globo.
E para seus amigos, familiares e camaradas, Wilson era um exemplo de ser humano, uma fonte inesgotável de carinho, humildade, sabedoria, conhecimento, ternura, camaradagem. Wilson era muito mais que seus “textões”, sua crítica ácida contra o que discordava, sua habilidade elaborativa nem sempre sucinta, seu dom incrível para escrita contundente e poética, sua compreensão profunda da arte e história. Ele era tudo isso e mais um pouco.
Wilson expressava a força transformadora que será a única capaz de unir nossa classe e fazer com que, entre nós, cada trabalhador e trabalhadora, em especial cada negro, mulher e LGBTI, tome as rédeas de suas próprias vidas para mudar o mundo e se libertar.
Essas poucas linhas são pouco para fazer jus a um camarada tão importante. É difícil assimilar o que acaba de acontecer. Mas manteremos nosso compromisso inabalável pela ferramenta que construímos ombro a ombro, em cada trincheira. Redobramos nossa determinação em seguir seu legado irrefutável e avançar a construção de um mundo novo.
Wilson é o sangue que pulsa em nossas veias e continuará pulsando em cada batalha, em cada ato de rebeldia, em cada parada LGBTI, em cada quilombo, em cada elaboração e reflexão teórica, em cada tarefa internacional, em cada caminho que nos leve até a revolução. Wilson nos ensinou o significado real do que é a palavra bantu Ubuntu, que sempre repetia: eu sou porque nós somos. Era também a força viva e constante do axé.
Compartilhamos nossos mais profundos sentimentos com toda sua família, seus amigos, companheiros de décadas, e com toda a nossa militância do PSTU e da LIT-QI que hoje perde um de nossos camaradas históricos e imprescindíveis.
Wilson foi, é e sempre será um marco e a demonstração, para a nossa classe e para a humanidade, de que diante da sociedade que destila ódio e da barbárie capitalista, nossa escolha é a revolução.
Wilson está vivo em nós!
Wilson presente – até o socialismo, sempre!