O martírio, na grande Porto Alegre, está longe de acabar. A previsão dos meteorologistas é que as chuvas e ventos, na região metropolitana e nos afluentes, irão manter o nível do Guaíba estacionado acima dos 5 metros talvez por semanas. Em pleno século XXI, com a ciência e a técnica altamente desenvolvidas, além dos milhares de desabrigados e desalojados que não poderão voltar para suas casas, 80% das pessoas que ainda estão em casa permanecem sem fornecimento de água. A maioria das casas de bomba de água estão inundadas. Não funcionam a contenção das águas, a drenagem e nem o abastecimento de água potável.
Hoje, os moradores da região metropolitana continuam sem água para beber. Isto sem falar no vai-e-vem da luz que impede que as pessoas mantenham alimentos estocados. Hoje, toda a grande Porto Alegre vive aquilo que os moradores da Lomba do Pinheiro ou da região das Ilhas vivem por décadas. É a expansão da barbárie.
Mas a realidade no interior não é menos desoladora. Ao todo, 1,7 milhão de pessoas do estado estão afetadas pela atual enchente. Moradores de Muçum e Lajeado, por exemplo, perderam móveis e eletrodomésticos pela quarta vez nos últimos 2 anos. Não podem mais planejar suas vidas, comprar móveis ou até veículos porque sabem que vão perder de novo.

Evidentemente, se não houvesse a precarização da Defesa Civil do estado e das cidades, e dos sistemas de alarme, poderia se ter salvado as 107 vidas perdidas até o momento. Mas a precarização vai muito além disto. Pois, não basta avisar as pessoas. É inadmissível submeter a população a perder o pouco que têm, em tempos cada vez mais curtos.
E isto tem tudo a ver com opções conscientes daqueles que governam no nosso país e estado, como mínimo, nos últimos 30 anos. A pesquisa de opinião do Instituto Quaest, divulgada no dia 9 de maio, revela que a maioria da população identifica as responsabilidades – 68% do governo estadual, 64% dos governos municipais e 59% do Governo Federal. Apenas 30% dos entrevistados avaliam que o que vivemos no estado do Rio Grande do Sul “é inevitável”, ou seja, a grande maioria da população tem noção de que o desastre poderia ter sido evitado ou, ao menos, minimizado, se houvesse investimento, por parte dos governos, em prevenção.
Nós concordamos com o que se expressou na pesquisa. Não podemos passar o pano para nenhum dos governos. Nem ao privatista prefeito Sebastião Melo, notório inimigo da natureza, que patrocina ações políticas destrutivas da ocupação urbana da cidade e sabota o Departamento Municipal de Águas e Esgotos (Dmae), que deveria ter gerido a crise hídrica provocada pela invasão do Guaíba..
Nem ao privatista governador Eduardo Leite (PSDB), que está há 5 anos à frente do estado e privatizou CEEE e Corsan, e destruiu a legislação ambiental do estado, avalizando agora em março mudanças nas leis aprovadas pela também neoliberal e negacionista Assembleia Legislativa, que tiram do Estado o poder de vigiar áreas sob proteção ambiental. Aliás, vem circulando pelas redes sociais um vídeo da propaganda eleitoral de Leite ao governo do estado afirmando que, para explorar a região portuária para o turismo e negócios, defendia abertamente a derrubada dos muros de contenção de águas do Cais Mauá. Se Leite tivesse conseguido concretizar seu projeto, e não houvesse mais a estrutura de concreto de 3 metros de altura e 2,6 km de extensão — que apesar de ter tido falhas pontuais, impediu um desastre ainda maior nesta semana…
“Não é hora de apontar culpados” dizem.
— Rodrigo Sartoti 👨🏽🏫🏳️🌈 (@sartoti) May 10, 2024
Este é o @EduardoLeite_, governador do RS, defendendo a demolição do muro Mauá em Porto Alegre. Esse muro é a contenção de enchentes no Guaíba.
Esse vídeo envelheceu mal como Leite no sol! pic.twitter.com/tWpy8qi0c4
A responsabilidade do PT que conduziu o país por 15 anos nestas últimas décadas, porém, também é imensa. A infraestrutura necessária para a prevenção de desastres está sucateada devido às sucessivas leis de Responsabilidade Fiscal (e do mais recente Arcabouço Fiscal), fazendo com que o orçamento federal para o setor tenha sido o menor em 14 anos, sendo que 43% do orçamento geral foi destinado para o pagamento da dívida pública, principalmente para os banqueiros.
Apesar de que, no discurso, Lula defenda a pauta ambiental contra o “negacionismo”, na prática continua investindo nos setores que são os principais responsáveis pelo aquecimento que fez do ano de 2023 o mais quente da história. Além dos sucessivos incentivos aos desmatadores que são as megaempresas do agro e das montadoras de carros, não houve nenhuma medida no sentido da transição energética. Ao contrário - a bola da vez exploratória é a foz do Amazonas, tendo o governo e o presidente da Petrobras pressionando o Ibama para a liberação da licença ambiental. Lula afirmou, na última COP, que “A Petrobras não vai deixar de prospectar petróleo, temos que lembrar isso, porque o combustível fóssil ainda vai funcionar por muito tempo na economia mundial.”
Apesar de que setores da nossa ricocracia, como Leite, que fala agora num “Plano Marshall” ou da “economia de guerra”, é certo que será necessário implementar o investimento de dezenas de bilhões não apenas para a reconstrução das casas, estradas e pontes, mas para investimentos profundos na infra-estrutura preventiva. As medidas do governo de auxílio veiculadas até agora pela imprensa, são mínimas. Para as pessoas físicas, as medidas são mera antecipação de benefícios sociais que trabalhadores e vulneráveis já possuem, como bolsa família, seguro-desemprego, auxílio gás. Já os 50 bilhões em crédito para as empresas, todos nós sabemos que só chega para os grandes. Nunca chega aos pequenos e médios produtores rurais que não podem mais assumir mais dívidas.
Não bastará reconstruir. Será necessário fazer adequações levando em conta que novos eventos climáticos extremos voltarão a se manifestar. Como afirmam os técnicos, será necessário mudar de lugar cidades inteiras que hoje se localizam em áreas mais baixas, planas e úmidas, nas áreas de encostas, nas margens de rios e nas cidades que estão dentro de vales. E nada disso se fará se não houver uma mudança profunda na política econômica e na política fiscal de todos os governos. Nada disso se fará sem enfrentarmos os interesses da ricocracia do nosso país.
De tudo isto precisamos tirar uma lição – não podemos deixar na mão destes governos nossos destinos. Somente com muita luta e auto-organização dos debaixo poderemos impedir novas tragédias.