Reajuste proposto pelo governo mal compra um pacote de arroz

Diego Cruz
Reajuste proposto pelo governo mal compra um pacote de arroz
Reajuste proposto pelo governo mal compra um pacote de arroz

No início deste ano, o governo Lula manteve o valor do salário mínimo definido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral, passando de R$ 1.212 para R$ 1.302, um reajuste irrisório, de 1,5%, descontada a inflação, após quatro anos sem aumento real e até desvalorização. Já para maio, Lula anunciou um aumento de R$ 18, elevando o piso nacional para R$ 1.320.

Longe de ser "apenas" insuficiente, esse novo valor é irrisório, não repondo sequer as perdas inflacionárias sofridas pela população mais pobre, impactada pelo aumento nos preços em áreas básicas, principalmente na alimentação, muito maior que a inflação oficial medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Só em 2022, a alta dos alimentos foi maior que o dobro do conjunto da inflação. E isso não é de hoje.

Para se ter uma ideia, levantamento do Dieese aponta que o atual salário mínimo compra menos que duas cestas básicas. Mais precisamente, em janeiro equivalia a 1,62 cesta básica. É menos do que comprava em janeiro do ano passado, 1,70 cesta, ou em toda a década passada. Na verdade, essa relação só não é menor que em 2005, mostrando o grau de empobrecimento e de desvalorização real do salário mínimo na vida concreta das famílias trabalhadoras.

Ainda segundo o Dieese, o salário mínimo deveria ser de R$ 6.641, para cumprir sua função constitucional de prover o básico em alimentação, moradia, higiene e demais necessidades fundamentais de uma família.

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Política de terra arrasada de Bolsonaro e Guedes

Bolsonaro foi o primeiro presidente em três décadas a entregar o mandato com um salário mínimo menor do que quando entrou. Não foi exatamente uma surpresa quando vazou o plano de Paulo Guedes de desindexar o reajuste do mínimo com a inflação.

Na cadeira de presidente, Bolsonaro pôs fim, em 2020, à regra de reajuste oficializada durante o governo Dilma, baseada na variação do PIB (Produto Interno Bruto) de dois anos antes, junto à inflação do ano anterior.

Ainda que essa regra fosse rebaixada e insuficiente para garantir um salário minimamente decente, sua suspensão por Bolsonaro rebaixou ainda mais o salário mínimo e tirou, no acumulado desses quatro anos, um total de R$ 1.058 de cada trabalhador, segundo cálculo da LCA Consultoria.

Ao contrário do que se possa imaginar, ainda que, hoje, a grande maioria da força de trabalho do país esteja subempregada, na mais completa informalidade ou simplesmente sem trabalho algum, o salário mínimo tem, sim, um impacto significativo.

São 60,3 milhões de pessoas que têm seus rendimentos atrelados ao mínimo, seja diretamente ou por benefícios, como aposentadoria ou o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Isso significa que só a desvalorização imposta pelo governo Bolsonaro, que tirou R$ 1.058 de cada um que recebe o mínimo, roubou um montante de R$ 63,7 bilhões para o grande capital.

Proposta

Duplicação imediata, rumo ao mínimo do Dieese

O aumento de R$ 18 anunciado pelo governo Lula para marcar o Dia do Trabalhador não compra sequer um pacote de arroz. É absurdo que Guilherme Boulos, deputado do PSOL, comemore esse valor nas redes sociais: "Esse é só o começo. A reconstrução do Brasil exige o aumento da renda dos trabalhadores. Seguiremos avançando". Um "avanço" de R$ 18?

Até a direção da CUT considera o reajuste muito baixo, mas propõe, no lugar, um salário mínimo de R$ 1.382,71. Ou seja, um aumento de pouco mais de R$ 60; o valor que, a entidade aponta, estaríamos se a antiga política de valorização não tivesse sido abandonada. Mas que não resolve, ou sequer ameniza, o fato de ser um salário mínimo de fome.

Essa regra que o governo cogita retomar, de atrelar o reajuste ao crescimento do PIB, não resolveu o problema do salário mínimo. E nem vai resolver. Ele não garante aumento em períodos de recessão, justamente quando os trabalhadores mais precisam, e coloca no horizonte reajustes de 3%; 4%, no melhor das hipóteses, 5%, enquanto a inflação dos alimentos para os mais pobres está sendo pelo menos o triplo disso.

São propostas que tentam não ir contra o “mercado” e que apostam numa suposta responsabilidade fiscal que, em bom português, é a continuidade dos lucros dos bancos, das grandes empresas e multinacionais, e do pagamento da dívida pública a eles, através da superexploração, em detrimento da miséria de milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

E enquanto isso a burguesia e os bilionários veem seus lucros crescendo na casa das dezenas, como foi o caso dos bancos, que aumentaram 20% só no ano passado, beneficiados pela taxa básica de juros de 13,75%, o governo propõe um reajuste do mínimo de só 2,8%.

O PSTU defende a imediata duplicação do salário mínimo, rumo ao mínimo estabelecido pelo Dieese. O dinheiro para isso tem, basta tirar do lucro dos bilionários, das desonerações aos grandes capitalistas e da dívida paga aos banqueiros.