PSTU lança vídeo sobre as origens do Manifesto do Partido Comunista

Denior José Machado, de Porto Alegre (RS)
PSTU lança vídeo sobre as origens do Manifesto do Partido Comunista
PSTU lança vídeo sobre as origens do Manifesto do Partido Comunista

No dia 6 de abril foi lançado o vídeo "Manifesto do Partido Comunista: As origens", com a apresentação de Ana Godoi, da Secretaria Nacional de Formação do PSTU.

O Manifesto do Partido Comunista, escrito em 1848 por Marx e Engels para a Liga dos Comunistas, abre com a frase “Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo”. É irônico que hoje o comunismo ainda seja a palavra com a qual a ultradireita busca assustar as massas, o que indica quem para ela de fato é o inimigo: a classe trabalhadora organizada com um projeto de sociedade sem classes.

Como Ana explica no vídeo, as primeiras organizações de trabalhadores surgiram para a ajuda mútua, para fazer frente às dificuldades. Essa solidariedade evoluiu para a formação de grupos mais estruturados, especialmente na Inglaterra, e depois para grandes lutas operárias.

Provindos da academia, Marx e Engels não acreditavam que as mudanças viriam de uma elite, mesmo que intelectual. Aproximaram-se da Liga dos Justos (que depois tornou-se a Liga dos Comunistas), uma organização internacional de operários já existente, que atuava clandestinamente e lutava contra as péssimas condições de vida dos trabalhadores, baixos salários, moradias inadequadas e condições de trabalho insalubres.

Seus estudos concluíram que o mal que tomava conta da sociedade não se esgotaria com o desenvolvimento do capitalismo, pelo contrário. Ao mesmo tempo que desenvolvia as forças produtivas no seu período ascendente, o capitalismo já o fazia em base à exploração e a violência sobre os trabalhadores. Havia uma grande contradição, que só se acirrava: os proprietários das indústrias, terras e demais meios de produção concentravam as riquezas, fruto do trabalho operário em suas mãos, a despeito da crescente miséria dos trabalhadores e setores marginalizados da produção.

Isto é o oposto da ideologia liberal capitalista, que afirma que o livre mercado acabará com a extrema miséria, na medida do crescimento da produção. Portanto, não há nenhum interesse da burguesia em mudar esse sistema.

Observando as lutas e revoluções naquele período de grandes transformações, Marx e Engels concluíram que a única classe que poderia conduzir a mudança seria a classe trabalhadora, e teria que fazê-lo através de uma revolução contra os capitalistas. Mas, para isto, era hora de os próprios comunistas dizerem a que vinham, com o objetivo de conscientizar a classe trabalhadora da concepção de mundo e projeto socialistas. E assim nasce o Manifesto.

A relação entre trabalhadores e proprietários, uma relação de exploração, em que a concentração de riqueza se baseia na apropriação dos frutos do trabalho operário, moldou a anatomia da sociedade e gerou contradições que persistem até hoje, se aprofundando. Por isso, é uma ilusão esperar que o capitalismo tome jeito, que deixe de gerar pobreza, desemprego, destruição da natureza, violência, racismo, machismo e LGBT-fobia e as guerras. É necessário apontar o alvo correto: o poder da burguesia e a propriedade privada dos principais meios de produção tem que acabar. No Manifesto, com outras palavras, Marx já rebatia a falácia que ainda hoje a ultradireita repete, de que os comunistas querem tirar os bens dos trabalhadores. Não se trata de tomar o seu iPhone, mas de os trabalhadores tomarem a fábrica de iPhones.

Estas análises do Manifesto mostraram-se extraordinariamente certeiras. A disputa de um mercado em constante expansão levou à globalização da produção e do consumo. As indústrias nacionais foram substituídas por novas, dependentes de matérias-primas e mercados internacionais. As nações se tornaram mais interdependentes, tanto na produção material quanto cultural. A burguesia submeteu o campo à cidade, os países atrasados aos civilizados. A centralização política se intensificou, com a criação de nações unificadas sob um único governo. Todas estas transformações processaram-se cegamente sob o descontrole do deus mercado. Os lucros sendo sempre apropriados pela burguesia, cujo punhado de bilionários detêm a mesma riqueza que a grande massa da população. Todas as contradições, das quais o capitalismo é incapaz de se livrar, geraram crises cíclicas na própria economia capitalista, com consequências terríveis para a população. Mas também geraram uma luta de classes acirrada, com a emergência da classe trabalhadora como uma força real. Em alguns países a luta se transformou em revoluções socialistas.

A Revolução Russa de 1917 foi um grande triunfo sob as bandeiras do Manifesto do Partido Comunista. Foi uma vitória que provocou uma reviravolta no século XX e assustou os donos do mundo. Teve um período de grandes conquistas para a classe trabalhadora, mas é necessário dizer que foi uma vitória contraditória e que não perdurou. Hoje este exemplo é usado negativamente pela ultradireita para ilustrar a suposta impossibilidade do comunismo e de seu dito caráter opressor.

A possibilidade de passar por verdade esta versão da revolução russa se baseia no fato real de que a contrarrevolução que as nações imperialistas não conseguiram impor num primeiro momento, desenvolveu-se internamente à própria ex-URSS. Stalin, encabeçando uma burocracia contrarrevolucionária derrotou e matou os dirigentes da revolução. Permanecendo na direção do Partido e do Estado, afastou-o definitivamente do marxismo. Este é o tema de outros artigos, mas temos que remarcar que o stalinismo não ia em direção ao socialismo, nem ao fim das diferenças de classe e à democracia operária preconizados por Marx. Pelo contrário, impôs-se uma “ditadura sobre os trabalhadores” a serviço da garantia dos privilégios de dirigentes burocrático,, favorecendo as pressões capitalistas que vieram a prevalecer no fim da URSS.

Durante dois séculos o Manifesto tem sido um guia para a ação dos revolucionários, organizados em partidos socialistas:

“Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses diferentes daqueles do proletariado em geral. Não formulam quaisquer princípios particulares a fim de modelar o movimento proletário. Os únicos pontos que distinguem os comunistas dos outros partidos operários são os seguintes:

1) nas lutas nacionais dos proletários dos diversos países, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns a todo o proletariado, independente da nacionalidade; 2) nos vários estágios de desenvolvimento da luta da classe operária contra a burguesia, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em geral.”

...

“De um lado, portanto, os comunistas constituem, praticamente, a fração mais resoluta e mais avançada dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; do outro, têm, teoricamente, sobre o proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário.”

No Brasil, o discurso anticomunista de Bolsonaro fez com que uma camada de jovens que repudiaram o governo genocida procurassem saber o que é o marxismo, com simpatia em relação aos comunistas. Buscam nas redes sociais os partidos que assim se intitulam, ou simplesmente de esquerda. Ao que parece, todos reivindicariam o Manifesto do Partido Comunista.

Mas quanto mais lermos e debatermos a fundo o Manifesto do Partido Comunista, mais fica nítido que a concordância é aparente, limitando-se a reconhecer a existência de classes sociais, da exploração e um ideal comunista. No entanto, as principais conclusões de Marx e Engels contrapõe-se à prática de muitos desses partidos. Quando Marx falava da conquista do poder pelos trabalhadores, falava de uma revolução e de um estado operário, e não da disputa do Estado capitalista. O caráter relativamente progressista da burguesia contra o Estado feudal já havia se esgotado. As traições da burguesia à própria revolução anti-absolutista no século XIX, como na Alemanha, confirmaram a necessidade da independência política completa dos trabalhadores, ao contrário do apoio a governos de colaboração de classes por muitos dos atuais partidos de esquerda. A necessidade da revolução mundial ("proletários de todos os países, uni-vos") virou uma bandeira puramente decorativa enquanto constroem projetos nacionais aliados à burguesia.

A resposta a estes falsificadores podemos buscar no próprio Manifesto do Partido Comunista, no capítulo dedicado a combater as confusões e as ilusões reformistas de outras correntes, convictos que estavam Marx e Engels de que só uma teoria e um programa corretos seriam dignos de ser apresentados para avançar na consciência de classe.

Portanto, hoje é necessário, tanto quanto nos tempos de Marx e Engels, conhecer o Manifesto, estudá-lo, debatê-lo, para resgatá-lo como instrumento da luta pelo socialismo, dado que tem sido deturpado pela esquerda majoritária, e caluniado pela direita e pela burguesia.