Portugal em greve geral: a resposta da classe trabalhadora ao ataque do governo

Joana Salay
Portugal em greve geral: a resposta da classe trabalhadora ao ataque do governo
Em assembleia, trabalhadores da Volkswagen, maior fábrica de Portugal, aprovaram participar da greve geralEm assembleia, trabalhadores da Volkswagen, maior fábrica de Portugal, aprovaram participar da greve geral

Em Portugal, as principais centrais sindicais, CGTP‑IN e UGT, convocaram uma greve geral para 11 de dezembro de 2025. Trata-se da primeira paralisação conjunta dessas centrais desde 2013, um sinal claro do grau de mobilização e insatisfação dos trabalhadores diante de um ataque profundo aos seus direitos.

O mote da greve é a proposta de reforma Trabalhista apresentada pelo governo liderado por Luís Montenegro, do PSD. A reforma, batizada de “Trabalho XXI”, contempla alterações em mais de 100 artigos do Código do Trabalho. A defesa da reforma se baseia no discurso da “modernização” da economia, mais produtividade, flexibilização do mercado de trabalho, “competitividade” e, segundo o primeiro-ministro, “mais crescimento” econômico. 

Mas para os sindicatos e para os trabalhadores a proposta representa justamente o contrário: mais insegurança, mais exploração e menos direitos. A proposta inclui medidas extremamente gravosas, como o regresso do banco de horas individual, permitindo jornadas de até 50 horas semanais; o alargamento dos contratos a termo, que podem chegar a três anos; e novas facilidades para despedimentos, inclusive com mecanismos que reduzem a proteção laboral. Também mexe em direitos de parentalidade, reduzindo garantias para trabalhadores com filhos, e endurece as regras sobre greve ao ampliar os chamados serviços mínimos. Neste contexto, a greve geral expressa uma resistência indispensável.

A greve geral deve ter forte impacto em setores essenciais como saúde, educação, transportes, recolha de resíduos e serviços municipais. Tendo também importantes setores da classe operária aderido à luta, como foi aprovado em assembleia pelos trabalhadores da Volkswagen, maior fábrica do país. 

Crise política e ascensão da extrema direita

A eclosão dessa ofensiva contra os direitos trabalhistas não pode ser entendida fora do cenário político recente em Portugal. Em maio de 2025 ocorreram as eleições legislativas, convocadas após a queda do governo, a terceira eleição legislativa em menos de quatro anos.

A coligação de direita, com o PSD e CDS, liderada por Luís Montenegro, saiu vitoriosa com cerca de 32% dos votos e 91 deputados, um avanço em relação a 2024, mas ainda sem maioria absoluta. Paralelamente, cresceu expressivamente a votação da extrema direita representada pelo Chega, que alcançou cerca de 23% dos votos, tornando-se a segunda maior bancada parlamentar.

Esse quadro de instabilidade, com um governo de direita e um peso grande da extrema direita no parlamento, abre terreno para projetos como o “Trabalho XXI” e os ataques aos direitos dos imigrantes. O próprio governo, desde sua formação, anunciou que daria prioridade às políticas de “flexibilização”. 

Da crise da “Troika” aos ataques de hoje 

Para compreender a gravidade do momento, é útil recuar um pouco na história. Há pouco mais de uma década, com o programa de ajustamento da Troika (comissão formada pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia para impor reformas), Portugal viveu duras medidas de austeridade, cortes de direitos, precarização, desemprego e arrocho salarial, todas como parte de um plano de contenção da dívida e reestruturação neoliberal.

Desse período saiu o governo da Geringonça, 2015 a 2019, composto pelo PS (Partido Socialista) e apoiado por BE (Bloco de Esquerda) e PCP (Partido Comunista Português), que prometia virar a página da austeridade, mas manteve todas as reformas estruturais do período da Troika. No entanto, a opção por um pacto de governabilidade sem romper com a burguesia para promover uma mudança estrutural, gerou desilusão em amplos setores populares. Esse desgaste e a percepção de que a “geringonça” não rompeu com a lógica neoliberal, junto com a crise econômica, o desemprego e a precarização, contribuíram para criar um terreno fértil para a ascensão da extrema-direita, representada pelo Chega, que capitalizou o descontentamento e a insatisfação com a “velha política”. Não à toa, tanto BE quanto PCP vêm acumulando sucessivas derrotas eleitorais. 

Reforma Trabalhista no Brasil, “Trabalho XXI” em Portugal: a mesma lógica da exploração 

A batalha contra a escala 6x1 no Brasil, símbolo máximo da superexploração, da degradação das condições de vida e da lógica patronal de sugar até o último minuto do trabalhador, insere-se na mesma ofensiva capitalista que hoje ataca os direitos em Portugal. Aqui, após anos de reforma trabalhista, terceirização ilimitada e precarização, o governo Lula, de frente ampla, mantém intacto o núcleo da reforma de 2017. 

Nos dois países, os governos ao serviço do capitalismo tentam impor jornadas extenuantes, flexibilização e perda de direitos para aumentar lucros em meio à crise global do sistema. A crise capitalista não respeita fronteiras, os patrões, as classes dominantes e os governos a seu serviço atuam numa ofensiva internacional que empurra os trabalhadores a condições cada vez mais brutais. Por isso, reforçar a solidariedade entre os trabalhadores, trocar experiências e coordenar lutas é mais urgente do que nunca. 

A resistência contra a escala 6x1 no Brasil e a construção da greve geral em Portugal revelam a mesma necessidade: unificar a classe trabalhadora para enfrentar a ofensiva capitalista e construir uma alternativa revolucionária e socialista.

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