Pela derrota militar da Rússia. Basta de racismo contra os imigrantes negros na Ucrânia

LIT-QI
Pela derrota militar da Rússia. Basta de racismo contra os imigrantes negros na Ucrânia
Pela derrota militar da Rússia. Basta de racismo contra os imigrantes negros na Ucrânia

Publicado originalmente no site da LIT-QI

A criminosa invasão militar russa à Ucrânia, no dia 24 de fevereiro deste ano, fez da Europa o palco de uma guerra com consequências ainda imprevisíveis. Segundo o Ministério da Saúde ucraniano, em quatro dias de conflitos 2.040 civis ficaram feridos em ataques da Rússia ao país, sendo 45 delas crianças[1]. Segundo o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU), em seis dias de guerra, o número de refugiados da Ucrânia ultrapassa a marca de 677 mil pessoas[2].

Por Wagner Miquéias F. Damasceno – Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU (Brasil)

O número de mortos, feridos e refugiados da Ucrânia prova que estamos diante de uma grande crise humanitária, e não poderia ser de outra maneira, já que a segunda potência militar mundial agrediu covardemente uma nação independente e que não possui condições materiais de fazer frente às tropas inimigas.

Por isso, nós da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) estamos a favor da derrota militar da Rússia de Vladimir Putin e defendemos uma Ucrânia unificada e livre da opressão russa.

Mas, como não poderia ser diferente sob o capitalismo, em meio a essa tragédia humanitária na Ucrânia, o racismo e a xenofobia atuam de forma escancarada e violenta impedindo que refugiados negros e árabes consigam deixar o país em busca de refúgio político nos países vizinhos.

Dizemos que não poderia ser diferente porque as opressões raciais e xenofóbicas não entram em suspensão quando há pandemias ou guerras, ao contrário: elas aprofundam o drama da classe trabalhadora, dividindo o proletariado em campos hostis no momento em que a união se torna ainda mais necessária.

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A via crucis dos refugiados negros

Segundo um estudante nigeriano que estava imigrado na Ucrânia, há uma espécie de “hierarquia racial” que coloca os homens e mulheres negras no fim da fila dos refugiados da guerra. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, há inúmeros relatos como este reunidos na hashtag #AfricansinUkraine (africanos na Ucrânia), informando que africanos e outros imigrantes negros que vivem no país estão sendo vítimas de racismo ao tentarem se deslocar e deixar o país, sendo barrados em trens, ônibus e nas fronteiras por guardas ou outros cidadãos ucranianos[3].

Em sua conta no Instagram, Moreno Santiago, jogador brasileiro de futsal, relatou que ele e mais dois amigos foram expulsos pelo maquinista do trem que tomaram em Kiev ao tentarem sair da Ucrânia: “Ele tinha aceitado nos levar, mas do nada nos colocou para fora. Ele empurrou o David para fora, o David se machucou. Ele não queria mais nos levar, quando viu que a gente é moreno, que tinha preto junto, ficou falando besteira, então não deu certo”[4].

Num misto de racismo e xenofobia, forças ucranianas e dos países europeus fronteiriços, mostram que, para eles, há vidas que valem mais do que outras.

A guerra em solo europeu também fez aflorar o racismo e a xenofobia de jornalistas e repórteres que, indiferentes com as guerras imperialistas no Oriente Médio e na África, lamentam que a guerra dessa vez acometa “nações civilizadas”[5]. Um dos comentaristas europeus se mostra abalado por ver “pessoas europeias, com cabelos loiros, olhos azuis sendo mortas”, deixando transparecer o racismo e a indiferença com a vida de milhares de negros e pessoas não europeias mortas nas guerras imperialistas conduzidas há décadas pelos EUA, com o apoio de países da União Europeia, da ONU e da OTAN.

É preciso repudiar fortemente toda ação racista e xenófoba, quer parta de agentes ucranianos, quer parta de agentes dos países fronteiriços. E exigir o direito inalienável de todos os imigrantes que viviam na Ucrânia de se refugiarem em segurança, recebendo tratamento igualitário no que diz respeito à comida, transporte, atendimento médico, acesso à direitos e o direito à dupla cidadania no país em que decidam viver.

A mentira de uma Ucrânia nazista

O racismo e a xenofobia com imigrantes negros na Ucrânia, por outro lado, não confirmam o discurso vendido pela Rússia – e reproduzido por organizações stalinistas – de que a Ucrânia é um país nazista. Afinal, o racismo e a xenofobia não são monopólios de um ou outro país, mas ideologias e práticas presentes em todos os países sob o capitalismo. Basta lembrar o tratamento dispensado aos imigrantes africanos em solo brasileiro, como vimos no brutal assassinato do jovem congolês Moïse Kabagambe[6].

Há setores de extrema-direita de caráter nazi-fascista na Ucrânia, como o batalhão Azov. Mas representam uma ínfima minoria política no país. As milícias nacionalistas ucranianas não são de ultradireita, mas grupos amorfos ideologicamente, que se organizaram para combater o agressor estrangeiro.

As correntes de ultradireita ucranianas tentaram aproveitar o espaço depois da Revolução na Praça Maidan, em 2014, e receberam menos de 1% dos votos nas eleições gerais, numa mostra de que ideologias de extrema-direita têm um peso minúsculo nas massas ucranianas, tanto eleitoralmente, como enquanto organizações.

Mas há setores de extrema-direita na Ucrânia, como há no Brasil, e mais ainda, na Rússia. Segundo informes, a Rússia é o país com a maior quantidade de formações paramilitares de ultradireita. Grupos como o Rusich, que combatem no Donbass.

Até 2014, Moscou era conhecida pela grande quantidade de skinheads fascistas nas ruas, era perigoso para imigrantes e não-brancos de qualquer nacionalidade andarem pelas ruas a noite. Este perigo desapareceu. Não existem mais skinheads e grupos fascistas atuantes em Moscou porque todos foram combater no Donbass, constituindo a base das tais “repúblicas de Donetsk e Lugansk”.

Estes grupos de extrema-direita paramilitares russos são diretamente ligados e financiados por setores do governo russo, como Ragozin, chefe da Roskosmos. É também sabido que Putin financia grupos da extrema-direita europeia, usa seus instrumentos de comunicação para divulgar fakenews, campanhas antivacina etc.

Os tártaros da Crimeia, expulsos de sua terra por Stalin e hoje novamente oprimidos por se negarem a reconhecer a anexação russa da Crimeia, são alvos de perseguição étnica da parte da Rússia. Estes tártaros, de origem muçulmana e peles escuras, são defendidos pelos nacionalistas ucranianos, que Putin acusa de fascistas. Suas lideranças estão mortas ou presas, com a onda de repressão desencadeada após a anexação da Crimeia.

Por fim, não é algo menor a posição de Bolsonaro diante deste conflito. Pressionado internacionalmente, seu governo votou a favor de sanções à Rússia. Porém, se dirigindo diretamente – e privadamente – a sua base de apoio, Bolsonaro disse que “O comunismo se transmutou, voltou para o seu berço europeu, agora não prega mais lutas de classes e sim, pautas, como as do preconceito, minorias, sexuais, machismo (…) O comunismo tem outro nome, se chama Progressismo e seu berço é a Europa”. Assim, segundo Bolsonaro, Putin seria “gente nossa”[7].

O nacionalismo russo: racismo e xenofobia

Para entender a perenidade do racismo e da xenofobia numa Ucrânia acoada e agredida pela guerra é preciso falar do papel desempenhado pelo stalinismo no fomento dos preconceitos raciais e étnicos contra os povos e países oprimidos pela Rússia ao longo do século XX. Uma clara afronta à defesa de Lenin do direito à autodeterminação das nações oprimidas e da necessidade de se combater os preconceitos nacionais e chauvinistas.

Lenin tinha a nítida compreensão de que a Rússia exercia um papel opressivo sobre os diferentes povos que a circundavam e que mesmo após a tomada do poder essa opressão nacional não desaparecia por mágica, cabendo aos revolucionários russos defenderem o direito à autodeterminação das nações oprimidas. Em O proletariado e o direito à autodeterminação, escrito em 1915, assim dizia:

"A Rússia é uma prisão de povos não apenas em consequência do caráter militar-feudal do tsarismo, não apenas porque a burguesia grã-russa apoia o tsarismo, mas também porque a burguesia polaca, etc., sacrificou aos interesses da expansão capitalista a liberdade das nações, do mesmo modo que a democracia em geral. O proletariado da Rússia não pode nem marchar à frente do povo para a revolução democrática vitoriosa (esta é a sua tarefa mais imediata) nem lutar juntamente com os seus irmãos proletários da Europa pela revolução socialista sem reivindicar desde já completa, e sem reservas, a liberdade para todas as nações oprimidas pelo tsarismo, de se separarem da Rússia" (1981, p. 277-278).

De forma semelhante também pensava Trotsky, como vemos nesta instrutiva comparação com o direito das mulheres ao aborto:

"A burocracia do Kremlin diz à mulher soviética: como no nosso país há socialismo você deve ser feliz e não abortar (ou sofrer o castigo consequente). Aos ucranianos lhes diz: como a revolução socialista resolveu a questão nacional é seu dever ser feliz na URSS e renunciar à toda ideia de separação (ou aceitar o esquadrão de fuzilamento). O que diz o revolucionário à mulher? "Deve ser você a decidir se quer um filho; eu defenderei o seu direito ao aborto contra polícia do Kremlin". Ao povo ucraniano lhe diz: "O que a mim me importa é a sua atitude sobre o seu destino nacional e não os sofismas ‘socialistas’ da polícia do Kremlin; apoiarei a sua luta pela independência com todas as minhas forças!"." (1939).

Observem que o direito à autodeterminação – tal qual o direito ao aborto – não significa uma exigência à “separação”, mas sim o reconhecimento e o apoio ao direito de uma nação oprimida se independentizar.

Por isso Putin chamou de loucura essa política defendida por Lenin: demos a eles o direito de deixar a URSS sem termos ou condições. Isso é uma loucura”. E enalteceu Stalin, que suprimiu com sangue todas as aspirações nacionais dos povos soviéticos e impôs uma opressão brutal do nacionalismo grão russo, em continuidade direta com a política czarista que Lenin combateu frontalmente.

Os preconceitos grão russos contra chechenos, georgianos e cazaquistaneses, alimentados por décadas pela burocracia stalinista, são partes do preconceito racial e xenofóbico fomentado dentro da própria Rússia contra imigrantes negros, árabes, asiáticos e latinos. Como dissemos em texto anterior[8], a Rússia chegou a ser o terceiro país que mais recebia imigrantes no mundo, utilizando amplamente da força de trabalho barata de imigrantes vindos das ex-repúblicas soviéticas, em especial da Ásia Central e do Cáucaso.

Para termos uma ideia, segundo dados do Comitê Organizador da Copa do Mundo da Rússia, em 2018, cerca de 50% dos operários que trabalharam na construção das obras do Mundial eram imigrantes, majoritariamente vindos das nações que constituíam a URSS.

Imigrantes que ocupam os piores postos de trabalho e recebem os piores salários:

Boa parte dos taxistas, garçonetes, faxineiras, operários da construção civil, entre outros, tem algo em comum em Moscou – são imigrantes de países que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). São homens e mulheres que deixaram Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, países da Ásia Central para tentar uma vida melhor em Moscou e em outras grandes cidades do país, mas se sentem discriminados por parte da sociedade russa[9].

Por seu turno, esse preconceito racial e xenofóbico fomentado pelo stalinismo contra as nações oprimidas que compunham à força a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) reproduziu-se e ganhou forma também em cada um desses países, como a Ucrânia, especialmente com negros e árabes.

Lutar contra o racismo e a xenofobia para unir o proletariado

Os odiosos casos de racismo e xenofobia contra refugiados negros têm sido usados por setores pró-Rússia como justificativa para a agressão militar contra a Ucrânia. Com justiça, organizações e ativistas do movimento negro têm denunciado o racismo contra refugiados, porém chegando a conclusões de que a Ucrânia é um país irrecuperavelmente racista (ou até mesmo nazista) e que por isso deveríamos apoiar as tropas russas.

Há também aqueles que concluem que – diante da comoção desigual com refugiados brancos europeus e refugiados negros vindos da África, de árabes da Síria, e de latino americanos – já temos problemas internos demais no Brasil para se preocupar com o que acontece no Leste Europeu, num conflito que, supostamente, só envolveria brancos.

Para nós, toda essa postura de desconfiança e até indiferença é compreensível pois tem uma base na realidade: os abundantes casos de racismo contra negros refugiados e, por outro lado, o racismo deslavado que não dá a mínima quando a guerra e seus horrores acometem países da periferia do capitalismo e sua população não branca.

No entanto, o racismo contra nossos irmãos imigrantes negros não pode nos fazer perder de vista por nenhum instante que a resistência do povo ucraniano é a resistência contra a opressão de uma nação muitíssimo mais poderosa, a Rússia. É a luta de um povo oprimido pelo direito à sua própria existência. Para nós, socialistas, é preciso lutar contra todas as opressões para unirmos a classe trabalhadora, condição fundamental para que ela consiga vencer seus grandes inimigos: os governos burgueses, a burguesia e o imperialismo.

Por isso, devemos exigir o direito inalienável e em iguais condições dos imigrantes negros e árabes que viviam na Ucrânia de se refugiarem e com direito à dupla cidadania no país em que decidam viver. E denunciaremos implacavelmente qualquer forma de racismo e xenofobia.

Por último, acreditamos que é tarefa de todo o movimento negro e proletário, em nível internacional, se posicionar firmemente contra a invasão militar russa e em defesa do povo ucraniano.

Referências

LÉNINE, V.I. O proletariado e o direito à autodeterminação. In: Obras Escolhidas em Seis Tomos 2. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1984.

TROTSKY, Leon. A Independência da Ucrânia e a Confusão Sectária. Arquivo Marxista na Internet, México, 30 jul. 1939. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1939/07/30.htm>. Acesso em: 30 abr. 2020.

Notas:

[1]Ver: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2022/02/28/guerra-ucrania-russia-feridos-mortos.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 01 mar. 2022.

[2]Ver: https://news.un.org/en/story/2022/03/1113052. Acesso em 01 mar. 2022.

[3]Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/pessoas-negras-na-ucrania-dizem-ser-alvo-de-racismo-e-barradas-em-trens-ao-tentar-fugir.shtml. Acesso 01 mar. 2022.

[4]Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/pessoas-negras-na-ucrania-dizem-ser-alvo-de-racismo-e-barradas-em-trens-ao-tentar-fugir.shtml. Acesso 01 mar. 2022.

[5]Ver: https://twitter.com/verapstu/status/1498674320658288652. Acesso em 01 mar. 2022; ver também: https://twitter.com/redfishstream/status/1497969331484909570. Acesso em 01 mar. 2022.

[6]Ver: https://litci.org/pt/declaracao-conjunta-justica-para-moise-kabagambe-basta-de-violencia-racista-e-xenofoba/. Acesso em 03 mar. 2022.

[7]Ver: https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2022/03/02/whatsapp-mostra-que-apego-de-bolsonaro-a-putin-vai-alem-dos-negocios.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 03 mar. 2022.

[8]Ver: https://litci.org/pt/a-russia-sob-putin/. Acesso em 02 mar. 2022.

[9]Ver: https://www.terra.com.br/amp/esportes/futebol/copa-do-mundo/ta-russo-50-dos-operarios-sao-da-ex-urss-e-o-preconceito-e-grande,330cc22bc12e704ddca06b82582c65cbmxhybt67.html. Acesso em 03 mar. 2022.