Imposto de Renda: Atualização da tabela continua onerando os trabalhadores e poupando os super-ricos

Diego Cruz
Imposto de Renda: Atualização da tabela continua onerando os trabalhadores e poupando os super-ricos
Imposto de Renda: Atualização da tabela continua onerando os trabalhadores e poupando os super-ricos

Em 2023, pela primeira vez, quem recebe um salário mínimo e meio vai sair da faixa de isenção do Imposto de Renda e passará a ter que contribuir para o Leão. Reflexo da enorme defasagem da tabela do IR, que chega a 148,10% desde 1996 e vai obrigar a declarar quem ganha acima de míseros R$ 1.903,99.

Essa é a ponta do iceberg de uma estrutura tributária extremamente regressiva que, de forma perversa, taxa na fonte os trabalhadores mais pobres e a classe média, enquanto isenta os lucros e dividendos dos super-ricos e bilionários. A tabela, que não se move desde 2015, quando o limite da isenção equivalia a 2,5 salários mínimos, e antes disso vinha sendo atualizada de forma bem insuficiente, estacionou-se justamente na maior parte dos assalariados mais pobres.

Levantamento realizado pela Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil) mostra que, caso a tabela do IR fosse atualizada pela inflação, estaria isento hoje quem ganhasse até R$ 4.723,77. Essa defasagem rouba, todos os anos, R$ 229 bilhões de mais de 30 milhões de pessoas que não deveriam estar pagando.

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Lula descumpre promessa de campanha

No dia 16 de fevereiro, Lula anunciou em seu Twitter que elevaria a faixa de isenção do Imposto de Renda para R$ 2.640,00, contrariando o que prometeu durante a campanha eleitoral, de isenção até R$ 5.000,00. Ou seja, se hoje é isento quem ganha até um salário e meio, passará a constar na faixa de isenção quem ganha até dois mínimos. O que o governo propõe agora é quase o que planejava o então governo Bolsonaro no ano passado, de isenção até os R$ 2.500,00, de forma absolutamente eleitoreira, é claro, já que em seu governo a defasagem avançou 29,58%.

Se por um lado essa pequena correção imediata de 38,66% prometida por Lula atinge 22 milhões, segundo projeções, mostrando como o IR se concentra justamente em quem ganha menos, por outro, parcelas significativas da classe trabalhadora continuarão sendo pesadamente oneradas. E os bilionários permanecerão recebendo seus dividendos limpos.

Veja como funciona esse roubo em forma de imposto. Um mecânico de manutenção da siderúrgica CSN que ganha salário de R$ 2.215,00 (segundo um site em que os trabalhadores compartilham seus rendimentos) recebe logo uma mordida de 7,5% do IR, ou R$ 166,00. Já os acionistas da mesma CSN, grandes investidores de fundos bilionários que nunca pisaram numa fábrica ou numa mina, receberam R$ 2,4 bilhões em 2022, sem qualquer imposto e no conforto de seus escritórios, muitos deles lá fora.

Atual tabela para o IR deste ano

Valor do salário Alíquota do Imposto de Renda

Até R$ 1.903,98  - Isento De R$ 1.903,99 a R$ 2.826,65 - 7,5% De R$ 2.826,66 a R$ 3.751,05 - 15% De R$ 3.751,06 a R$ 4.664,68 - 22,5% Acima de R$ 4.664,68 - 27,5%

Fonte: Unafisco

PROGRAMA

Desonerar os trabalhadores, taxar os bilionários e atacar a grande propriedade

Além da atualização do IR que mantém uma pesada carga tributária sobre grande parte da classe trabalhadora, o governo Lula cogita uma reforma que perpetua outra injustiça: mantém a regressividade do sistema e simplesmente propõem unificar os impostos sobre o consumo. Ou seja, nada vai mudar na vida da classe trabalhadora, que paga imposto ao receber o salário e quando vai ao supermercado. Na verdade, os trabalhadores sofrem um triplo confisco: na fonte, no consumo e no próprio imposto que o patrão paga, quando paga, já que esse imposto vem do fruto do trabalho.

É a classe trabalhadora quem produz valor através do seu trabalho, e produz o lucro e a fortuna dos patrões, e mesmo o imposto que eles pagam, e ainda assim proporcionalmente bem menor que o resto da população. O imposto funciona como confisco cada vez maior da renda gerada pela classe trabalhadora, e que vai, através do Estado, subsidiar o grande agronegócio, as multinacionais e grandes empresas, e enriquecer banqueiro através dos juros da dívida.

Segundo estudo técnico da Unafisco, há hoje R$ 367,3 bilhões em isenção de lucros e dividendos, e isenção de tributos da Zona Franca de Manaus, desoneração da folha de pagamentos para grandes empresas e demais setores.

É preciso inverter essa lógica. O PSTU defende isenção para todos os trabalhadores que ganhem até dez salários mínimos. E o fim dos subsídios e isenções aos super-ricos, taxando 40% da fortuna acumulada dos bilionários, só isso daria algo como R$ 325 bilhões. Além de um imposto fortemente progressivo não só das grandes fortunas, mas do lucro, dos dividendos e da grande propriedade dos bilionários.

Reverter essa carga tributária e taxar os super-ricos é urgente, mas é preciso ir além para mudar de verdade o país. É necessário avançar sobre a grande propriedade dos bilionários, das grandes empresas e multinacionais, reestatizar empresas como a CSN, a Vale e a Petrobras, sob controle dos trabalhadores, além das 100 maiores empresas que controlam grande parte da nossa economia, colocando-as para funcionar de acordo com os interesses do povo.