As necessidades da classe trabalhadora não cabem na política econômica do governo Lula

Redação
As necessidades da classe trabalhadora não cabem na política econômica do governo Lula
As necessidades da classe trabalhadora não cabem na política econômica do governo Lula

Os recentes índices oficiais da economia, como o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas no país) ou a suposta redução do desemprego, mascaram a dura realidade enfrentada pela classe trabalhadora. O dia a dia das famílias é marcado pela alta inflação dos alimentos, a precarização do trabalho e jornadas extenuantes, agravadas pelas ondas de calor decorrentes da crise climática.

Não é contraditório, portanto, o salto na desaprovação do governo Lula e sua preocupação com as eleições. Desde o final de 2024, a rejeição vem aumentando, como divulgou o instituto AtlasIntel no dia 7 de março, com uma desaprovação de 53%.

Burguesia quer ainda mais ajuste fiscal e exploração

Lula promete uma série de benefícios aos trabalhadores, mas, na prática, atende a todas as vontades do mercado, caindo numa armadilha que ele próprio criou. Sua política econômica, voltada à defesa dos capitalistas, é o que tem provocado a queda em sua popularidade. Mesmo assim, a burguesia e o mercado financeiro exigem mais.

Aliados da direita, do centrão e da própria burguesia ameaçam abandonar o barco, enquanto a ultradireita se fortalece apesar da provável prisão de Bolsonaro. Já amplos setores bilionários capitalistas defendem ainda mais cortes, mas só para o lado do povo, uma vez que, para eles, querem ainda mais subsídios e isenções a fim de assegurar seus lucros. Em relação aos gastos sociais, exigem uma política à la Milei, um ultraliberalismo de terra arrasada, com austeridade severa e privatizações irrestritas.

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Enfrentar os bilionários

O que é preciso fazer para conter a inflação dos alimentos e atender às necessidades dos trabalhadores

A fim de conter sua crise, o governo anunciou o fim da alíquota de importação de produtos como café, açúcar e carne. Mas essa medida não vai fazer o preço da comida baixar. Afinal, o problema é justamente que os alimentos produzidos aqui são cotados pelo preço internacional no mercado financeiro. Ou seja, até agora o governo nada fez de efetivo para reduzir o preço dos alimentos. Teme fazer algo para não se indispor com o agronegócio e a burguesia.

Se o Brasil produz carne e café, entre outros produtos no país, custeados em Real, pagando salários em Real, por que temos que pagar o café nas gôndolas dos supermercados em seu equivalente em dólar?

Aumento dos salários de acordo com a inflação dos alimentos

O governo Lula poderia propor um gatilho salarial automático de acordo com a inflação dos alimentos. A burguesia e sua imprensa vendida tremem só de ouvir a palavra “gatilho”. Porém é o mais justo: a cesta básica subiu 10% no período? O salário mínimo, incluindo aposentadorias e benefícios sociais, sobem 10% também.

Ao invés disso, a proposta do governo é instituir o crédito consignado aos trabalhadores da iniciativa privada. Ao fim e ao cabo, só vai endividar ainda mais as famílias e garantir mais lucros aos bancos, já que não há risco de inadimplência.

Tirar dos lucros das grandes empresas do agronegócio e da indústria de alimentos

Além de restituir os estoques reguladores, ou seja, estoques de produtos básicos e essenciais, sob controle do Estado, por meio da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), é preciso atacar os lucros dos grandes monopólios do agronegócio e das indústrias alimentícias, grande parte delas multinacionais que exploram seus trabalhadores e cobram preços exorbitantes. Ou seja, abrir os livros das empresas, para ver o quanto estão lucrando e exigir a redução dos preços dos alimentos no Brasil a partir da constatação que a maior parte do que estas empresas ganham vai para acionistas e bilionários internacionais.

Reforma agrária radical e expropriação dos grandes monopólios do agro

Segundo CPT, mais de 950 mil pessoas e cerca de 59,4 milhões de hectares de terra estiveram envolvidos em conflitos no ano passado | Foto: Mídia Ninja

Se as grandes empresas de alimentos e varejistas se recusassem a atender essas medidas, de forma a insistir em cobrar preços abusivos, enriquecendo à custa do povo, o governo deveria expropriar, sem indenização, estas grandes empresas, colocando os produtos à venda com um preço bem mais baixo, já que não precisaria pagar os lucros dos capitalistas.

O alto preço que pagamos pela comida é expressão da condição subalterna e semicolonial do Brasil. A produção não é voltada para alimentar a população, mas para encher os bolsos dos grandes monopólios que dominam a produção e o processamento de alimentos. São megaempresas como a JBS ou a estadunidense Cargill, que determinam o que é produzido, quanto é produzido e para onde vai tudo isso.

É preciso expropriar os grandes monopólios do agronegócio sob controle dos trabalhadores, realizando ainda uma reforma agrária radical, não só conferindo terra a quem precisa, mas oferecendo subsídios, linhas de crédito e apoio técnico. Dessa forma, assegura-se não só a sobrevivência das famílias camponesas, como é possível garantir comida barata e segurança alimentar para a população brasileira.

Demarcação e titulação das terras indígenas e quilombolas

Em Brasília, indígenas cobram do governo Lula a demarcação das terras | Foto: Maiara Dourado/Cimi

O atual modelo capitalista no campo, com a brutal expansão das fronteiras agrícolas, é responsável ainda pelo extermínio dos povos originários e quilombolas. Com a cumplicidade do STF (Supremo Tribunal Federal) e do Congresso Nacional, dominado pela bancada da bala e do boi, e a omissão do governo Lula, querem impor o famigerado Marco Temporal e avançar ainda mais o roubo dos territórios indígenas e o genocídio indígena.

É necessário lutar para enterrar de vez a tese do Marco Temporal, garantir a demarcação e a efetiva titulação de todas as terras indígenas e quilombolas, o que, além de garantir a sobrevivência dos povos originários, serve ainda para conter o desmatamento e o avanço de grileiros, mineradoras e garimpo, protegendo o meio ambiente. É preciso também proteger o Ibama, a Funai e todos os órgãos fiscalizadores dos direitos indígenas e do meio ambiente.

Fim da escala 6x1, com redução da jornada e revogação da reforma trabalhista

Ativistas protestam pelo fim da escala 6x1 na avenida Paulista, em São Paulo (SP)

Além da inflação dos alimentos, é preciso acabar com a jornada extenuante de trabalho. O movimento pelo fim da Escala 6x1 ganhou amplo apoio na sociedade, e por um motivo bem simples: ninguém aguenta trabalhar tanto para ganhar tão pouco.

A superexploração está ligada com a precarização do trabalho, com a uberização e demais trabalhos por aplicativos, que se transformou numa espécie de escravidão moderna disfarçada de empreendedorismo. Um levantamento da FGV Ibre mostra que a diferença salarial entre trabalhadores formais e informais caiu de 73% para 31%, e isso não significa que os informais e precários estão ganhando mais, mas que os trabalhadores de carteira estão recebendo menos, nivelando por baixo a classe trabalhadora.

 Sobretaxar as 200 maiores empresas do país para garantir redução do imposto para os trabalhadores

O governo fez reforma tributária para as empresas, mas nada de isenção no Imposto de Renda para os trabalhadores. A prometida isenção para quem ganha até R$ 5 mil, por sua vez, ainda não foi implementada. Tende a ter efeito limitado (caso seja realmente concretizada), já que, com a política de travar o reajuste do mínimo e não atualizar o restante da tabela, em pouco tempo cada vez menos trabalhadores ficarão nessa faixa de isenção. É preciso sobretaxar os bilionários capitalistas e os lucros das 200 maiores empresas do país para garantir redução do imposto para os mais pobres, os trabalhadores e os pequenos proprietários.

Reestatização das empresas privatizadas, incluindo a Petrobras 100% estatal

Em fevereiro, o preço dos combustíveis teve nova alta. Isso aumenta o frete e gera uma pressão inflacionária em toda a cadeia produtiva. O governo Lula poderia reestatizar a Petrobras (prevê-se a distribuição de R$ 9,1 bilhões em dividendos – lucro repartido entre acionistas – em abril próximo). É o povo pagando com seu suor o lucro de um punhado de bilionários.

A privatização do setor elétrico também vem fazendo da vida da população um verdadeiro inferno, como acontece com a Enel, em São Paulo, ou com a Equatorial, em Porto Alegre. É preciso reestatizar todas as empresas privatizadas, sem indenização, e colocá-las sob controle dos trabalhadores.

Fim do arcabouço fiscal, suspensão e auditoria da dívida pública

O sistema da dívida transforma o país num cassino global, onde megafundos financeiros pegam dinheiro lá fora a juros de 1% e “investem” em títulos da dívida recebendo 13,25%, a segunda maior taxa de juros do mundo. Agiotagem pura e simples, um processo de rapina financeira que suga as riquezas do país. O arcabouço fiscal está a serviço desse sistema.

É preciso acabar com o arcabouço, suspender o pagamento da dívida, impor uma auditoria, mas não só. Nacionalizar o sistema financeiro, colocá-lo sob controle dos trabalhadores, para que financiem projetos de infraestrutura para o país, e oferecer crédito barato para a população, e não para extorquir o povo como acontece hoje.

Enfrentar a crise, os ataques do governo e a extrema direita

É necessário organizar uma oposição de esquerda e socialista

O governo Lula diz que a aliança com o centrão e a direita é para evitar os perigos da ultradireita. Mas nesse momento é o governo que mais ajuda a extrema direita. Inclusive para garantir de fato nenhuma anistia a golpistas, é preciso enfrentar a burguesia.

O governo Lula não está em disputa. É integralmente defensor do capitalismo. Lula não liga de governar com e para os bilionários, mesmo que, com isso, se afunde numa crise cada vez maior e perca sua base, vendo a extrema direita se fortalecer para 2026.

É necessário levantar um projeto revolucionário e socialista, apresentando uma alternativa à classe trabalhadora e à juventude. Caso contrário, se a esquerda continuar refém de um governo capitalista como o de Lula, continuaremos descendo ladeira abaixo, com a volta da extrema direita muito mais fortalecida e sedenta por sangue.