Além de tudo, o “PL do Estupro” também é racista

Flávia Bischain, de São Paulo (SP)
Além de tudo, o “PL do Estupro” também é racista
Além de tudo, o “PL do Estupro” também é racista

O Projeto de Lei (PL) 1904/2024, além de tudo, é racista. Ao equiparar, legalmente, o aborto após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) propõe, na prática, penalizar mulheres negras e periféricas. Isso é fácil de concluir quando se vê os registros de violência sexual no Brasil.

De acordo com o boletim “Notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, 2015 a 2021”, publicado em fevereiro de 2024 pelo Ministério da Saúde, 60,3% dos casos envolvem meninas negras de 10 a 19 anos. O estupro é o principal tipo de crime cometido contra nossas jovens, em geral por pessoas próximas e no ambiente doméstico.

Já a Pesquisa Nacional do Aborto/2021, coordenada pela antropóloga Debora Diniz, da Universidade de Brasília (UnB), ampliando o levantamento para mulheres de todas as idades, detectou que dentre as mulheres que abortaram pelo menos uma vez, 74% são negras.

Diante desses fatos, o Projeto de Lei, encampado por religiosos extremistas e bolsonaristas, se revela como mais uma face da guerra racista aos “de baixo”, particularmente às crianças, mulheres e pessoas com útero neste caso.

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Não podemos permitir que transformem vítimas em criminosas

Não será uma pena. Será uma medida socioeducativa. Ela pode fazer um atendimento socioeducacional para que isso não volte a acontecer”, disse o bolsonarista na GloboNews nesta semana. Ou seja, para o deputado a vítima também é culpada, como fica evidente em suas próprias palavras.

Esta é a mesma lógica reacionária que responsabiliza uma mãe negra pela prisão ou morte de seu filho nas mãos da polícia. Por que ela o deixou ir para o baile? Por que permitiu andar com as “pessoas erradas”? Por que não foi mais cuidadosa?

Nenhum questionamento é feito ao Estado burguês assassino. Todos se dirigem às vítimas. Há uma condenação na prática.

Ao tentarem obrigar crianças que já passaram por um profundo trauma e um sofrimento inominável a cumprirem o papel de mães, função que jamais deveria ser sua, esses canalhas provam que, entre as vidas que tanto dizem defender, não estão as negras e periféricas.

Quando se fala em genocídio, é preciso lembrar que ele tem múltiplas faces. A ação das forças de “segurança” é indisfarçável como mecanismo dessa engrenagem capitalista. Outras expressões são projetos de lei como este, na medida em que oferecem à população negra um horizonte de mais criminalização e encarceramento.

Por isso, derrubar o “PL do Estupro” também é uma tarefa urgente da luta antirracista no Brasil.

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